Quando o estresse vira o jeito “normal” de trabalhar

Você entra em uma reunião e percebe que ninguém está realmente ouvindo. Uma pessoa interrompe e pergunta o que já foi dito, outra responde na defensiva, alguém só concorda para acabar logo com aquela reunião. Todo mundo tem pressa, tudo parece urgente e todos querem a sua atenção.

A reunião termina, mas a tensão continua e aparece em vários momentos, na conversa atrapalhada no meio do corredor, na mensagem enviada sem cuidados cobrando uma entrega. 

E ai vem a frase: “aqui a gente não tem frescura, falamos direto mesmo. Somos prátcos!”

Quando falamos sobre gerenciamento de estresse, pensamos em atitudes individuais: respirar, fazer uma pausa, cuidar do sono, praticar atividade física. Tudo isso tem seu lugar. Mas, quando uma equipe inteira está no limite, precisamos ampliar a pergunta: o que, na nossa rotina de trabalho, está alimentando essa tensão? Será que de fato estamos sendo práticos, ou estamos beirando o limite da falta de consideração e educação com outras pessoas?

A pesquisadora Sigal Barsade estudou o contágio emocional nos grupos. Em seu experimento, emoções positivas compartilhadas favoreceram a cooperação, reduziram conflitos e melhoraram a percepção de desempenho. Suas pesquisas ajudam a compreender como o que sentimos pode influenciar as pessoas com quem trabalhamos e o meio em que vivemos.

E claro, na liderança, essa influência merece atenção porque ela se torna ainda mais forte. Já que quem dá o tom é a liderança.

Uma resposta ríspida pode tornar mais difícil a próxima pergunta e matar o potencial criativo de uma equipe. 

Uma cobrança sem contexto pode deixar várias pessoas tentando adivinhar o que fazer primeiro e diminuir a produtividade. 

Uma mudança de prioridade pode movimentar a equipe inteira, mesmo quando o líder imagina ter feito apenas um pequeno ajuste. E atrasar entregas.

Em O poder da inteligência emocional, Daniel Goleman, Richard Boyatzis e Annie McKee discutem como o estado emocional de quem lidera influencia a equipe. Essa influência aparece em comportamentos concretos: no tom de uma cobrança, na reação a um erro e na disposição para ouvir uma dificuldade.

Pense em um líder que, pressionado por um prazo, interrompe as explicações e responde: “Não quero saber do problema, preciso que resolvam”. Quem recebe essa resposta pode passar a esconder dificuldades para evitar outra reação semelhante. O líder perde informações que poderiam ajudá-lo a decidir, enquanto a equipe tenta resolver tudo sem pedir apoio.

A autoconsciência entra antes dessa resposta: perceber a própria irritação e escolher como agir. Ignorar ou investigar o que está dificultando a entrega. Perguntar “o que está impedindo o avanço e que decisão vocês precisam de mim?” permite cobrar o resultado e abrir espaço para resolver o problema.

Sob pressão, sua equipe consegue conversar com você sobre o que está acontecendo ou precisa gastar energia se protegendo da sua reação?

Imagine uma equipe que recebe três novas prioridades na mesma semana, sem que nenhuma entrega anterior seja retirada. As pessoas tentam dar conta de tudo, é ai que os atrasos acontecem, a comunicação piora e as cobranças se perdem.

Gerenciar o stress significa se questionar: o que cabe, de fato, no tempo e nos recursos disponíveis para o meu time? O que eu preciso negociar ou dizer não para fazer as nova prioridade caber no nosso dia a dia.

A Organização Mundial da Saúde aponta sobrecarga, pouca autonomia, papéis pouco claros e apoio limitado como riscos à saúde mental no trabalho. E isso se conecta diretamente com o preparo da liderança.

Gerenciar o estresse coletivo passa, portanto, por decisões que às vezes adiamos: escolher o que vem primeiro, negociar prazos, distribuir melhor as demandas e permitir que alguém diga “não estou conseguindo” antes que a situação se agrave. 

No relatório State of the Global Workplace 2026, da Gallup, 40% dos trabalhadores disseram ter sentido muito estresse no dia anterior à pesquisa. Entre gestores, foram 45%. Esses dados não explicam, sozinhos, a origem do estresse, mas mostram que quem conduz a equipe também precisa de atenção.

Essa discussão já está presente nas organizações. Mas reconhecer o problema precisa se traduzir em decisões. Mesmo sob pressão, que escolhas estão ao seu alcance para reduzir a tensão que você e sua equipe vivem?

Vale uma pausa para pensar:

  • O que estamos chamando de urgente sem discutir a prioridade?
  • Que demanda acrescentamos sem rever as anteriores?
  • Como eu reajo quando alguém sinaliza sobrecarga?
  • O que estou aceitando na minha rotina e preciso renegociar?
  • Que decisão sobre o meu time estou adiando, e quem está pagando o preço dessa demora?

Uma mente executiva precisa perceber o ambiente que ajuda a construir.

Quando a equipe inteira está no limite, o que você precisa rever no seu jeito de conduzir o trabalho?

Leitura indicada: O poder da inteligência emocional, de Daniel Goleman, Richard Boyatzis e Annie McKee.